Uma geração de homens criados pelas mães
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por Brett McKay
em 14/07/2011 às 8:03 | Artigos e ensaios
“Somos uma geração de homens
criados por mulheres. Fico imaginando se outra mulher é mesmo a resposta que
precisamos.”
Esse comentário, feito por Tyler
Durden no filme Clube da luta, é uma das falas mais memoráveis do filme
e frequentemente é repetida e discutida. Seu poder de impacto deve-se
seguramente ao modo como ressoou em muitos homens – como isso resumiu de forma
muito sucinta sua experiência de vida.
Frutos de pais divorciados, mães
solteiras ou pais que passavam mais tempo no trabalho do que em casa, esses
homens não tiveram um exemplo vital de masculinidade enquanto cresciam. Muitas
vezes, não apenas seus pais não estavam por perto como também faltaram mentores
masculinos em outras áreas da vida. São homens que entendem muito bem o
lamento de O Fauno de Mármore, de Nathaniel Hawthorne:
“Entre um homem e outro sempre há
um abismo intransponível. Eles nunca conseguem estender completamente a mão um
ao outro; por isso um homem nunca recebe qualquer ajuda íntima, qualquer amparo
cordial, de seu irmão, mas de mulheres: sua mãe, sua irmã ou sua esposa.”
Sem
mentores homens, muitos dessa geração se veem desorientados, incertos de como
lidar com uma indescritível, porém intensa, carência em suas vidas.
Como
chegamos ao ponto em que é possível, como Edward Abbey colocou,
“seguir
da infância à velhice sem nunca conhecer a masculinidade?”
Há
três instituições sociais básicas que historicamente têm servido para
transformar meninos em homens: família, religião e educação. Contudo, a
influência masculina nessas instituições diminuiu muito ao longo do século
passado. Vejamos cada uma delas mais de perto.
A família
Durante
o período pré-industrial, a casa de um homem também era o seu local de
trabalho. Para o camponês e o artesão, o “dia de trazer o filho para o
escritório” era todo dia. Pai e filho trabalhavam lado a lado do nascer ao pôr
do sol. Os pais ensinavam pelo exemplo, não apenas inserindo seus filhos no
ofício, mas transmitindo aos poucos lições sobre trabalho árduo e virtude.
Essa
relação foi quebrada pela Revolução Industrial, uma vez que os pais foram
forçados a abandonar as terras e as oficinas para ocupar um lugar na linha de
montagem. Uma nítida fronteira foi traçada entre a casa e o local de trabalho.
Os pais saíam de manhã e só voltavam dez, doze horas depois.
O
resultado dessa mudança econômica foi a ideia de que a casa se tornara a esfera da mulher,
um refúgio feminino do rude e sujo domínio profissional e político, o tal
“mundo dos homens”. As crianças passavam o tempo todo com suas mães e cabia a
elas, verdadeiros repositórios de virtude e moralidade, transformar seus
meninos em pequenos cavalheiros.
O
ideal (que sempre foi mais ideal do que real) da mãe em casa e do pai no
trabalho persistiu até os anos 1950. Ainda é um padrão romântico ao qual muitos
gostariam de retornar, ignorando o fato de que aquele cenário mantinha o pai
longe de seus filhos a maior parte do dia, privando-os de sua orientação e
criando uma cultura em que o papel de pai era considerado subordinado ao da
mãe.
Entretanto,
ao menos naquela época, o pai estava por perto. A taxa de divórcios começou a
subir a partir da metade do século e chegou ao auge por volta de 1980, quando
vários estados legalizaram o divórcio sem culpa. O judiciário, como funciona
até hoje, tipicamente favorecia a mãe na concessão da guarda.
Se
antes os filhos não viam seus pais enquanto eles estavam no trabalho, agora
eles só os viam nos fins de semana ou nos feriados. E é claro, muitos pais
voluntariamente fugiram da responsabilidade para com seus filhos; o percentual
de famílias monoparentais (das quais 84% chefiadas por mulheres) dobrou desde
1970 nos Estados Unidos.
Educação
Até
meados do século XIX, a ampla maioria de educadores era composta por homens. O
magistério não era considerado uma carreira a seguir pela vida toda, mas foi
bastante exercido por homens jovens durante os períodos de baixa no campo ou
enquanto estudavam para se tornar advogados ou religiosos. As crianças eram
consideradas naturalmente pecadoras e propensas à rebeldia; portanto,
precisavam de uma forte presença masculina para mantê-las na linha.
À
medida que algumas denominações cristãs se tornaram mais liberais, a ênfase no
pecado das crianças foi substituída pelo foco na necessidade de elas serem
cuidadosamente educadas dentro da moralidade, uma tarefa que, acreditava-se,
seria mais adequada ao sexo frágil.
Ao
mesmo tempo, as mulheres estavam se casando e tendo filhos mais tarde, o que
lhes dava mais tempo para lecionar antes de constituir família. O resultado foi
uma completa inversão de gênero no cenário da profissão de educador.
Em
1870, as mulheres somavam 2/3 dos professores, 3/4 em 1900 e 4/5 em 1910. Como
consequência, os meninos passavam uma parte significativa do dia na escola, mas
sem a influência e o exemplo de uma figura masculina.
Religião
A
terceira instituição que historicamente transformava meninos em homens é a
religião. Durante o século passado, para a maioria dos norte-americanos, essa
religião foi o cristianismo. No entanto, se a casa havia se tornado um lugar
completamente feminilizado, a igreja estava longe de ser um refúgio da
masculinidade.
Mulheres
costumam ser mais afeitas à religiosidade do que homens – e isso se mostra
verdadeiro independentemente da época, do lugar ou da fé. Isso significa que
elas têm sido historicamente mais propensas a participar dos cultos e à
participação ativa numa congregação. Os pastores cristãos, de forma consciente
ou não, naturalmente adequaram seu estilo e programas ao seu público principal.
O Jesus que os homens encontravam nos bancos das igrejas tornara-se uma alma
delicada e abatida caminhando por Jerusalém afagando a cabeça das crianças, falando
sobre as flores e chorando.
A
investida contra essa feminização do cristianismo começou mais ou menos na
virada século XX. Chamado de “Cristianismo Muscular”, seus defensores
associaram um corpo forte a uma fé forte e procuraram apresentar um evangelho
viril e vigoroso.
O
líder mais evidente e popular desse movimento foi o pregador evangélico Billy
Sunday. Ele foi jogador profissional de baseball antes de se converter ao
cristianismo e decidir se dedicar a difundir a fé. A pregação de Sunday era
carismática e corporal; salpicava seus sermões com referências esportivas,
corria de um lado pro outro, se jogava do púlpito como se estivesse deslizando
até uma base de baseball, arrebentava cadeiras para transmitir sua mensagem.
Sacudido
pela diferença entre a pregação de Sunday e o estilo mais “afeminado” típico da
época, um jornalista descreveu:
“Ele
tem postura de homem dentro e fora do púlpito. Fala como homem. Trabalha como
homem… Ele é viril com Deus e com todos que vêm ouvi-lo. Não importa o quanto
você discorde dele, ele te trata sempre de um jeito másculo. Ele não é uma
farsa, mas um homem viril dando a todos um tratamento justo”.
Sunday
apresentava Jesus como um Salvador viril, masculino; ele foi “o maior brigão da
História”. Era um Messias forte, um artesão com mãos calejadas de carpinteiro,
um homem que afugentou furiosamente os comerciantes do templo e corajosamente
enfrentou uma dolorosa execução. A fé não era para os delicados e preguiçosos.
Sunday acreditava que um homem cristão não deveria ser
“um
projeto de pano de chão, um fracote, uma espécie de bobo afeminado, que
deixasse todo mundo fazer capacho dele. O mais viril dos homens será aquele que
aceitar a Jesus Cristo. … Que Deus nos livre de um Cristianismo flácido, de
joelhos fracos e pele fina, sem coragem, afeminado”.
Baseando-se
no princípio de que “o evangelho viril de Cristo deveria ser ensinado de homem
pra homem”, em 1911 Sunday iniciou o “Movimento Progressista Masculino e
Religioso”. Longos avivamentos semanais apenas para homens eram ministrados com
grande sucesso; a presença masculina na igreja teve um aumento gritante de
800%.
Apesar
disso, Sunday não resolveu o problema de fazer os homens adquirirem o hábito de
ir à igreja. Com o surgimento de novas formas de entretenimento, a popularidade
de Sunday, e dos avivamentos em geral, foram se extinguindo e o desequilíbrio
de gêneros na religião continuou completamente inalterado.
O atual estado das coisas
Com
pais ausentes na criação, escolas povoadas por professoras e igrejas lutando
para se comunicar com os homens, muitos da atual geração podem sentir, e com
razão, que foram “criados por mulheres”. Como ficam esses homens? Como fica o
futuro da masculinidade?
É
realmente uma bagunça. Muitas coisas permanecem abaixo do ideal, mas também há
espaço para um justificado otimismo.
O
desequilíbrio de gêneros nas igrejas tem aumentado e a cultura cristã continua
excessivamente feminilizada. Em 1952, a proporção entre mulheres e homens
praticantes era de 53/47; agora é de 61/39. As igrejas continuam tentando
arrebanhar os homens, com estratégias que vão desde o sincero e atencioso (Fraternidade dos Homens), ao explicitamente ridículo (Domingo
de Futebol – vista a
camisa do seu time favorito e faça a ola!).
Os
números também não se mostram muito otimistas quando se fala de educação. Nos
últimos trinta anos, o percentual de professores homens nas escolas primárias
caiu levemente, de 17% para 14-9% (dependendo da fonte). O número é ainda mais
baixo em creches e pré-escolas: somente 2% são homens.
Embora os professores possam ser
encontrados em maior número nas escolas secundárias, também houve um declínio;
de 50% em 1980 para algo em torno de 40% atualmente. Com os meninos ficando
atrás das meninas em rendimento acadêmico, alguns especialistas em educação têm
tentado ativamente convocar mais homens para a profissão.
Apesar dos contínuos problemas na
esfera familiar e de suas preocupantes consequências (uma em cada três crianças
americanas crescerão num lar em que os pais são divorciados, separados ou nunca
se casaram), há razões para ser otimista em relação a esta instituição vital,
bem como ao papel do homem.
Apesar de muitos acharem que a
taxa de divórcios está crescendo, na verdade ela vem caindo ao longo das três
últimas décadas e atualmente está no patamar mais baixo em trinta anos. Entre
os casais com ensino superior, essa taxa é de apenas 11%.
Também tenho esperanças em
relação ao futuro por causa das admiráveis maravilhas da tecnologia. Acho que
nossos modernos avanços permitirão a um número cada vez maior de homens
trabalhar, pelo menos parte do tempo, em casa. Creio que isso resultará num
novo arquétipo de masculinidade: o Artesão Heroico 2.0.
Embora seja fácil se sentir
nostálgico pelos anos 1950, estou feliz por ser pai hoje. Eu não trabalho dez
horas por dia num emprego que eu odeio, venho para casa, brinco com meus filhos
uns poucos minutos e então abro uma cerveja em frente à televisão. Meu pai
viajava muito e nunca trocou uma fralda. Ele foi um grande pai, mas estou
amando ter um papel mais mão-na-massa com o nosso novo hóspede.
Digam o que quiserem sobre o
movimento feminista, mas estou feliz por ter sido “liberado” do ideal da
Revolução Industrial de ser o provedor ausente. Se há uma diferença que eu
observo entre a geração dos meus pais e a minha, é que a minha valoriza o tempo
em detrimento do dinheiro. E não porque sejamos preguiçosos, mas porque não
estamos dispostos a trocar o tempo passado com as pessoas que mais amamos por
uma aposentadoria tranquila.
* * *
Originalmente
publicado no site Art of Manliness sob o
título de A
Generation of Men Raised by Women. Tradução de Danilo
Freire, com
revisão de Alex Castro e edição de Jader
Pires.
Referência bibliográfica de algumas informações: Manhood in America: A Cultural
History, de
Michael Kimmel.
Brett McKay, e sua esposa Kate, são os fundadores
do site Art of
Manliness (Arte da Masculinidade), de onde
traduzimos esse texto. Ambos vivem em Tulsa, no Oklahoma. A foto registra um
breve e fracassado experimento com bigodes. No Twitter, pode ser encontrado em @brettmckay.
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