A nova geração de homens mimados
Isso aqui certamente não foi
escrito para os leitores PapodeHomem. É direcionado aos “moleques de prédio”,
gente que ainda não saiu do berço.
O que antes era mais restrito a
famílias ricas agora se espalhou pela classe média: dá para ser mimado mesmo
sem dinheiro. No entanto, a nova geração de homens com fraldas não é uma
categoria de seres, mas um estado de carência e fragilidade no qual qualquer
um pode cair.
É por isso que minha motivação
não é ridicularizar tais homens, mas apontar os problemas que surgem quando nos
posicionamos desse modo na vida. Escrevo, pois, do mesmo lado dos fracotes, não
me opondo, não criticando por fora. Estamos todos no mesmo time e desejamos
todos uma vida livre de mimos e carências, não é mesmo?
Destaco 8 comportamentos, 8
tipos de fraldas, que podem ser encontrados na nova geração de homens
mimados. Bons motivos pelos quais toda mulher deveria reclamar, xingar, gritar,
trair, humilhar, abandonar seu homem. Comento cada um deles com o desejo de que
todos nós possamos superar tais fixações e cultivar uma mente livre, um corpo
potente, uma vida generosa.
Qual
a sua?
Eles não
comem mamão
Durante um almoço com a equipe de
trabalho, descobri que o estagiário não gosta de suco de laranja com beterraba.
Não gosta e não bebe. Em outro almoço, enquanto eu me enchia de mamão, me
surpreendi com um: “Hum… Mamão eu nunca comi”. Sério, isto deveria ser
diagnosticado e tratado como doença. Sou do tempo em que todos bebíamos o mesmo
suco em família. Nada de “O que você quer?”, “Ah, eu quero Coca zero”, “E
você?”, “Água de coco”, “E…”, “Ai, não, não quero nada”.
Não é necessário abandonar as
preferências, claro, apenas não ser tão refém de “gosto” e “não gosto”. Eu não
gosto muito de grão de bico na salada, por exemplo, mas como. Repito: “Toda
mulher deveria desconfiar do desempenho sexual de um homem que não come de
tudo”. Com
exceção dos vegetarianos praticantes do tantra supremo, se você não come de
tudo, meu caro, não há possibilidade alguma de você comer bem uma mulher.
Eles
sentem “nojinho” no sexo
Já vi homens contarem que brocham
com cheiros estranhos na cama ou que não transam com mulheres menstruadas. Ora,
as mulheres nos lambem quando
estamos suados, levam
por trás, chupam, engolem… e nós queremos encontrar perfume francês debaixo da
calcinha?
Se você fizer sexo
irrestrito,
certamente vai sujar o lençol e seu próprio corpo com todo tipo de excreção. O
homem cuja consciência tudo atravessa não rejeita odores considerados nojentos.
Respira tudo pra dentro, sem exceção. Quando encontra sangue ou restos de fezes
na camisinha, ele dá um sorriso sacana e orgulhoso. ;-)
Eles se
masturbam e gozam sozinhos
Imagine Chuck Norris, Gandhi ou
Barack Obama vendo um filme pornô e melecando a mão. Ceninha no mínimo
estranha, não é mesmo? O que é bastante saudável na adolescência deveria ganhar
outro enfoque quando viramos homens. Qual o sentido em ejacular sozinho um dia
antes de encontrar sua namorada? Por que desperdiçar na tela do computador a
potência que você poderia usar com uma mulher? O cara ejacula o tempo inteiro e
depois reclama que não consegue prolongar a penetração com a namorada!
O homem que goza sozinho quase
todo dia, qual mente ele está cultivando? O que você acha que ele vai desejar
quando for para a cama com uma mulher? Se temos o hábito de ficar nos
agradando, focando apenas em nossas sensações, é isso que vamos continuar
fazendo diante de uma mulher pelada.
Se quer mimo, peça para sua mãe
transar com você.
Eles não
limpam o banheiro
Um homem só consegue parar de
fazer cagada na vida depois que aprende a limpar sua privada. Ele suja, a mãe
limpa. Ele dorme, a empregada arruma a cama. Que tipo de homem é esse? Enquanto
tratarmos o mundo como um hotel, seremos hóspedes.
Para além da privada, o mundo.
Aquele que joga lixo no chão deixa seu mundo menor, exclui a rua, exclui o banheiro
público, se distancia de tudo o que poderia incorporar à sua moradia como um
cidadão do planeta. É por isso que os homens mimados só olham para o próprio
umbigo: ali reside seu mundo, a única coisa digna de limpeza.
Eles não
sabem o que querem da vida
Fato: se o homem não sabe o que
fazer com sua vida, não saberá o que fazer com sua mulher. Além dos
adolescentes que perdem tempo com distrações e jovens que patinam entre mil
opções existenciais (alvos fáceis para essa crítica), há outros casos mais sutis,
já que nem sempre ter dinheiro, poder, casa e família significa ter
direcionamento na vida.
A nova geração de homens mimados
pode ser representada pela imagem de moleques emos que não comem agrião ou por
executivos dentro de uma Mercedes-Benz que nunca chegam a lugar algum. Ainda
que eles consigam tirar muito da vida, pouco tem a oferecer. Como afirma Alan
Wallace, nossa
felicidade e a sensação de ter uma vida com sentido não é proporcional ao que
extraímos do mundo e das pessoas, mas àquilo que trazemos ao mundo e às
pessoas. Não é por acaso que encontramos muitos homens bem sucedidos
completamente infelizes e impotentes, sem saber o que mais fazer com a vida (e
com a mulher na cama).
Eles
fazem o que têm vontade
O homem mimado se move com a
certeza de que sempre há alguém olhando por ele, pronto para protegê-lo,
socorrê-lo, salvá-lo, resgatá-lo e levá-lo ao hospital. A sensação de proteção
divina e a confiança em um resgate paternal tiram sua responsabilidade: ele
pode fazer qualquer coisa pois tudo acabará bem. E assim surgem os casos de
colegiais estupradas, índios queimados, carros batidos, grávidas abandonadas,
filhos abortados… O pai paga a faculdade para que o filho possa matar aula e
beber.
O homem muda de vida quando deixa
de fazer o que tem vontade e começa a fazer o que tem de ser feito. Não é à toa
que a maioria dos caras que conheço só viraram homem quando tiveram um filho.
Para fazê-los dormir, acabamos saindo do berço! Com outro ser à vista, vamos
além de nossos impulsos e desejos de satisfação imediata. Desenvolvemos
generosidade, talvez a maior qualidade de um homem
guerreiro.
Eles não
sabem o nome dos porteiros do prédio
Autocentrados, os meninos mimados
não tem interesse por aquilo que não pertence ao seu universo imediato. Lembro
de um cara que me perguntou o que eu faria no fim de semana, ao que respondi
falando de meditação e TaKeTiNa, uma técnica que usa a
polirritmia para transformação da mente. Se eu tivesse falado que passaria o
tempo todo dormindo, teria dado mais papo. Ele simplesmente ignorou, ainda que
nunca tivesse meditado nem conhecesse TaKeTiNa.
O homem mimado perdeu a
curiosidade que faz nossos olhos brilhar. Em seu prédio, seis porteiros se
revezam e ele não sabe o nome de nenhum. A melhor amiga de sua irmã, o tema da
pós-graduação do seu colega de trabalho, a viagem importantíssima que seu primo
fará… Ele esqueceu dentro de sua apatia distraída. Quando você o encontra, ele
sempre tem algo a falar e dificilmente oferece um espaço de autêntica escuta.
Eles
buscam conforto
Mesmo depois de começar a morar
sozinho e não mais depender financeiramente de meus pais, percebi o quanto
ainda eu mesmo me mimava. Comprava frutas na feira para a ex-namorada, pagava
as contas, limpava o banheiro, mas ainda assim dormia até me atrasar e enrolava
o máximo possível quando era preciso fazer tarefas chatas na empresa ou em
casa.
Nossos ancestrais caçavam
animais, passavam frio, viviam à beira da morte. Nós pedimos pizza, usamos
edredons e andamos de elevador com ar condicionado. Concordo que não dá mais
para sair com um porrete para caçar antílopes, mas é preciso resgatar alguns
comportamentos que ativam a energia masculina do destemor. Podemos começar com
pequenas coisas como dispensar luva e cachecol se não estivermos congelando.
Sempre me pergunto quando vejo um homem todo encapotado em uma temperatura de
15 graus: “Por que não sentir frio? Qual o problema?”.
Eu moro em São Paulo, não tenho
luva, gorro ou cachecol, ando de camiseta e tomo banho gelado no frio. Nada
demais, porém isso me deixa vivo e desperto. Tenho um amigo que nunca entende
como eu posso passar um feriado em retiro, madrugando para meditar o dia
inteiro, sem música, sem bebida, sem cafuné, sem diversão ou conforto algum, e
ainda pagar por isso!
O conforto nos entorpece. Viver
embaixo do edredon nos deixa sonolentos em vez de disponíveis, anestesiados em
vez de atentos. É por isso que admiro mestres de meditação que, mesmo com toda
a possibilidade de viver uma vida confortável, escolhem condições desafiantes
como dormir
no chão numa esteira de meditação em uma casa sem energia elétrica ou ficar imóvel
com água congelante batendo na cabeça durante a meditação takigyo.
Enfim,
como salvar essa geração?
Basta que cada homem mimado
comece a se observar para perceber traços de irritabilidade, ansiedade,
impulsividade e autocentramento. Em vez de trazer o conforto e o prazer que
esperamos, os mimos causam aflições mentais e corporais. Sofremos mais,
adoecemos mais. Assim que percebemos o problema, começamos a mudar por puro
instinto de sobrevivência.
Se você namora um homem que
manifesta algum dos comportamentos acima, não ceda aos seus mimos, dificulte as
coisas, peça para ele ir à feira sábado às 6h só para comprar um pedaço de
gengibre – diga que o do mercado não funciona para o chá que deseja preparar
(isso já aconteceu comigo!). Peça que ele limpe o banheiro um dia antes da
empregada chegar. Diga que não vai transar se ele não ficar duas semanas sem
ejacular.
Se você é amigo de um cara
mimado, desafie-o, encha o saco, tire sarro até ele mudar. Convide-o para algo
que ele não domina: mergulho, rafting, montanhismo, poker, meditação ou uma
noite de salsa com várias amigas.
Se você tem dúvidas se é um homem
mimado, apenas se faça 3 perguntas: “Há alguma comida que eu rejeite?”, “Quanto tempo
eu passo fazendo coisas para mim mesmo e quanto tempo eu gasto com foco em
outras pessoas, direta ou indiretamente?”, “Com que frequência eu reclamo ou
fico irritado?”.
Você pode tentar terapia
cognitivo-comportamental, mas há meios mais simples e baratos de deixar de ser
moleque de prédio. Como o mimo não é uma patologia biológica ou um distúrbio
psicológico por excelência, mas um comportamento negativo (sintoma ou não de um
problema maior), vou propor um método simples de cura. Nada muito sério ou
científico: para quem não lava a privada, compre água sanitária e coloque
AC/DC. Simples assim. Contemple sua própria vida, invoque desafios e elimine os
seus mimos.
No próximo almoço, encha o prato
com tudo o que normalmente não escolheria e coma com gosto. Supere a aversão a
cheiros ruins, evite ejacular quando não tiver uma mulher na sua frente,
pergunte o nome do porteiro, olhe o caixa nos olhos quando desejar “Um bom fim de
semana pra você”, beba menos, faça alguma prática que lhe prive de todo
conforto por algum tempo (seja uma vision quest ou um retiro de
meditação), seja curioso em relação à vida de outras pessoas, tome banho gelado
e dispense o cachecol. Enfim, vire homem.
E você? Que outros comportamentos
observa em seus amigos mimados?
P.S.: Para mimados ou guerreiros, deixo
um convite: de 25/7 a 23/8, vai rolar 5 workshops intensivos de TaKeTiNa.
É uma experiência mind blowing. Recomendo! Todas as infos estão no meu blog sobre polirritmia. Estarei em todos os workshops,
espero encontrá-los!
Quase professor de TaKeTiNa, baterista sem bateria,
meditante que não medita, ex-bolsista de dança de salão, ex-estudante de
filosofia e ex-solteiro. É editor do PapodeHomem, autor do Não2Não1, colunista da revista Vida Simples e
caseiro da Cabana PdH. No
Twitter: @gustavogitti.
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