Livro contesta o ideal das relações amorosas nos
contos de fadas
Autora de “Troco o
Príncipe Encantado pelo Lobo Mau” fala ao Delas e apresenta uma visão
irreverente sobre a mulher moderna
Redação,
iG São Paulo | 21/04/2011
15:06
"Não
quero covardes do meu lado", diz a autora Raquel Sánchez
Um homem malhado, sem camisa e com uma tatuagem no
bíceps esquerdo. A capa do livro “Troco o Príncipe Encantado pelo Lobo Mau”,
lançamento da editora Fontanar, não retrata exatamente um par romântico de
contos de fadas.
Obra de estreia da espanhola Raquel Sánchez
Silva, a publicação questiona o comportamento e as expectativas femininas em
relação aos relacionamentos amorosos. “Nem sapatinhos de cristal, nem pozinhos
mágicos, nem espelho que fala a verdade. Sou mais um supersapato de Manolo
Blahnik, sexo de verdade e os melhores elixires da juventude eterna”, brinca
ela no livro que pretende ser “um guia para se livrar dos ideais
ultrapassados”.
Em entrevista exclusiva ao Delas, Sánchez
fala sobre as aventuras sexuais da mulher moderna e como se comportam os estereótipos
masculinos:
iG: Eu seu livro, você cita o fim do homem “Don Juan”. Eles
estão mudando por uma escolha própria ou esse é um movimento necessário para
acompanhar as exigências das mulheres modernas?
Raquel Sánchez: O Don
Juan sempre foi um personagem detestável que a sociedade aplaudia, mas não é
mais. Os homens heterossexuais querem continuar participando do jogo da
sedução, mas sabem que as regras mudaram. Quem dá as cartas hoje já não é mais
o homem sozinho. Agora existe alternância e jogo de poder entre os sexos.
Assim, é preciso ser inteligente para conduzir.
iG: O “homem atormentado”, segundo o livro, é o pior tipo no
campo da compreensão. Você já topou com um desses na sua vida? Qual é o perfil
dele?
Raquel Sánchez: Um
homem atormentado é aquele que entra na sua vida carregando um passado pesado,
com fardos, lembranças e arrependimentos, quase todos relacionados com uma
ex-namorada difícil ou um sonho não realizado. É preciso fugir da tristeza e de
homens assim. É preciso buscar a fantasia, a vida e o sorriso. Conheci muitos,
e espero não conhecer outros.
iG: Quem é a Fada Madrinha dos tempos modernos? E por que
elas não são confiáveis?
Raquel Sánchez:
Sempre vão existir boas Fadas Madrinhas. Muitas são nossas avós, uma tia
maravilhosa, uma desconhecida que um dia muda sua vida com um gesto, um favor,
uma frase. Não coloco as mães nessa lista porque elas estão acima de tudo. O
que também existe desde sempre são as madrinhas traidoras, aquelas que ganham
confiança com sua amizade e depois fazem jogos com você. No livro,
concretamente, falo das que roubam o seu namorado.
iG: “Se você levar um bolo, ligue no dia seguinte para dizer
que não foi”. Que tipo de vovó, nada parecida com a dos contos de fadas, cantou
essa bola pra você?
Raquel Sánchez: Esse é o conselho de uma vovó mágica e sua
linda neta, minha amiga Ulia. Sua sabedoria nasce do orgulho e da força. Depois
de tomar um bolo, você vai ter que morder a língua para não gritar “Você
me deixou plantada esperando e estou magoada!”. Mas você não vai fazer isso.
Sua indiferença vai ser o castigo dele para sempre.
Quem quer ser uma chata aos cuidados dos sete anões?
iG: Você tem birra do Peter Pan? Por que diz que ele precisa
de uma “Supernanny”?
Raquel Sánchez: Eu
adoro o Peter Pan como personagem. Mas nós não vivemos na Terra do Nunca e
sabemos que a infância termina - e a adolescência também. Não suporto homens
que têm medo de compromisso e que se agarram em uma juventude fictícia, que
chamo de “Síndrome de Peter Pan”. Uma Supernanny poderia fazê-los pensar e
perceber algumas coisas, embora eu ache que eles são um caso perdido. Não quero
covardes do meu lado.
iG: Qual é a crença mais errada dos contos de fadas, na sua
opinião?
Raquel Sánchez: A
maioria deles é cruel, irreal, anacrônico. Detesto todas as mulheres que
apostam sua felicidade na conquista de um homem: um príncipe que desperta com
um beijo as Brancas de Neve e as Belas Adormecidas, o príncipe que resgata a
Cinderela de sua prisão. Nenhuma delas pode dar conta de sua fuga e felicidade
sozinhas. São retratos de mulheres frágeis e castigadas por sua curiosidade,
pelo tear de tecidos, pela maçã... É detestável por ser tão manipulador.
iG: O que o lobo mau tem de bom que o príncipe não tem?
Raquel Sánchez: O
lobo feroz tem pegada e sabe enlouquecer você. O príncipe te leva no seu cavalo
branco, mas seus beijos deixam você fria. É preciso escolher ou encontrar uma
combinação possível (é difícil encontrar o híbrido, mas ele existe). Na
realidade, todas queremos o mesmo: um lobo apaixonado sábado à noite, e um
príncipe doce que nos acorde aos domingos de manhã.

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