O SIM E O NÃO [19.11.2007]
Ruy Castro
Ruy Castro
A jovem sai de casa em São Paulo usando cabelo verde e com um
alfinete de fralda espetado na bochecha. Horas depois, junta-se a um grupo que,
diante de testemunhas, esfaqueia até a morte o empregado de uma lanchonete por
causa de um pedaço de pizza. A moça vai presa e, ao saber disso, sua mãe tem um
espanto: "É impossível! Fulaninha só sai uma vez por semana, com as amiguinhas!"
Em Itaboraí, RJ, uma festa rave com a duração de 17 horas provoca
a internação hospitalar de 18 garotos e duas mortes, uma delas por típica
overdose de ecstasy: hipertermia - a pessoa literalmente ferve por dentro -,
desidratação aguda e parada cardiorrespiratória. Os pais do menino morto não
sabiam que ele fora à festa.
No Rio, a polícia desbarata uma quadrilha de oito traficantes de
ecstasy. Todos, exceto um, de classe média, habitantes da zona Sul, entre 20 e
30 anos e ainda morando com os pais. Mas, pelo visto, a vigilância dos velhos
andava relaxada, a ponto de um deles não estranhar que o filho passasse o dia
falando em três celulares ao mesmo tempo.
Estes foram apenas alguns casos policiais graves envolvendo jovens
nas últimas semanas, e só no eixo Rio-São Paulo. Em todos, os pais manifestaram
grande surpresa pelo comportamento dos garotos. Alguma coisa aí está errada.
Esses pais dão casa, comida e roupa lavada a seus filhos até uma idade tardia,
mas talvez isto não seja suficiente.
Talvez fosse também o caso de eles aprenderem a dizer
"não" quando for o caso, ao contrário do "sim" amplo, geral
e irrestrito com que contemplam os filhos desde o berço - ou desde que se
tornou "incorreto" acreditar que a liberdade só dá frutos quando
exercida dentro de certos limites. Um destes, quadradamente, o daquela velha
esquecida prova de amor: a autoridade paterna.
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