A Amélia é que era mulher de
verdade
Maria Rita Kehl
publicado na revista Playboy de
março de 1994.
Em qualquer tempo existem Amélias. E existem as outras, aquelas de quem o poeta se queixa: "Nunca vi fazer tanta exigência...". A Amélia, aquela do samba, merece um pouco de justiça. Não sei que tipo de transformação pós-feminista sua imagem foi sofrendo até virar sinônimo de tudo o que uma moça moderna não quer ser: uma boba submissa, nada sexy, nada independente, sempre esperando o marido chegar do trabalho, de chinelos e avental.
O samba não diz nada disso. Amélia era só uma
mulher compreensiva, solidária - uma companheirona. E romântica como já não há:
passava fome ao lado do seu amor e ainda achava isso bonito. Nem criava caso
quando a barra pesava; dizia só: "Meu filho, o que se há de fazer?".
Quem sabe Amélia fosse mesmo a tia-avó das mulheres atuais, emancipadas, das
que não se unem a um homem em função da conta bancária e de um futuro
assegurado, e sim a fim de companhia inteligente, boa conversa, carinho e
amor...
Amélia agüentou firme a dureza do poeta. Mulher
legal. Deixou saudade, inspirou um clássico do samba.
Mas alguma coisa deu errado em seu romance, apesar
de tanta dedicação. Afinal, se o sambista cantou a saudade da Amélia foi porque
o casamento dançou, e não por viuvez - nada indica, no tom brejeiro do samba,
que Amélia tenha falecido. "Mulher de verdade" fica até o fim. Quem
caiu fora foi o poeta, provavelmente apaixonado pela outra, a pérfida dondoca
de quem viria mais tarde a reclamar: "Você não sabe o que é consciência.
Não vê que eu sou um pobre rapaz?". Pois é, Amélia foi tão legal que o
poeta perdeu o tesão. Amélia virou mãe, colega, irmãzinha, companheira de
batalhas, amiga do peito - dançou.
Mulher que não faz exigências, o cara desconfia.
Mulher tem que ser narcisista. Pose de rainha. Tem que ser um pouco inimiga
também, não sei por que , mas tem. Mulher amiga demais não dá samba. Ou dá, mas
só depois, de arrependimento, de saudade... "Ai, meu Deus, que saudade da
Amélia! Aquilo sim é que era mulher!"
Mulher não pode dizer: "Meu filho, o que se há
de fazer?", senão o cara não se sente cobrado o suficiente. Fica pensando
que ela está pensando que ele é um incapaz - afinal, o que é que ela tanto
perdoa? Os homens vivem pedindo perdão, têm uma certa volúpia masculina em
inventar motivos para viver pedindo perdão à mulher amada, mas não perdoam a
mulher que os perdoa. Vivem se queixando do excesso de exigências femininas,
mas não agüentam a mulher que não exige nada. Se é que existe alguma mulher que
não exija nada do seu homem.
De minha parte, tenho sérias dúvidas. Amélia achava
bonito não ter o que comer - mas fome de que tinha essa mulher então? Fome de
amor, de puro amor. "Amélia não tinha a menor vaidade", não pensava
em jóias, vestidos, perfumes. Pensava em que, então? No amor, só no amor.
Amélia não queria nada - nada a não ser o seu amor, de corpo e alma. Mas se um
homem der corpo e alma a uma mulher, o que lhe resta?
Mulher pouco exigente é uma ficção. Dá para
entender que o poeta tenha substituído Amélia pela outra que "só pensa em
luxo e riqueza/tudo o que você vê, você quer"... Diante da exigência total
da Amélia, um homem prefere se matar de trabalhar para satisfazer às exigências
da outra - bem mais vulgares, bem menos românticas, mas mesmo assim mais
suportáveis. Um homem prefere se esfalfar para tentar dar a uma mulher tudo o
que ela quer (mesmo que não consiga), desde que ela não queira ser a
proprietária do corpo e da alma dele.
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