Domingo, Janeiro 07, 2007
Berenice Bento*
Há muitas formas de se assassinar
uma mulher: revólveres, facas, espancamentos, cárcere privado, torturas
contínuas. Mesmo com um ativismo feminista que tem pautado a violência contra
as mulheres como uma das piores mazelas nacionais, a estrutura hierarquizada
das relações entre os gêneros resiste, revelando-nos que há múltiplas fontes
que alimentam o ódio ao feminino.
Como não ficar estarrecida com a
reiterada violência contra as mulheres nos comerciais de cerveja? Com raras
exceções, a estrutura dos comerciais não muda: a mulher quase desnuda, a
cerveja gelada e o homem ávido de sede. As campanhas são direcionadas para o
homem, aquele que pode comprar.
Alguns exemplos: uma mulher faz
uma pequena dissertação sobre a cerveja para uma audiência masculina, incrédula
de sua inteligência. Logo o mal-entendido se desfaz: claro, uma mulher não
poderia saber tantas coisas se tivesse como mentor um homem; a mulher é
engarrafada, transformada em cerveja; um mestre obsceno infantiliza e comete
assédio moral contra uma discípula; ela é a BOA. Quem? O quê? A mulher ou a
cerveja?
Todos os comerciais são de
cervejas diferentes e estão sendo exibidas simultaneamente. Nesses comerciais
não há metáforas. A mulher não é ‘como se fosse a cerveja’: é a cerveja. Está
ali para ser consumida silenciosamente, passivamente, sem esboçar reação, pelo
homem. Tão dispensável que pode, inclusive, ser substituída por uma boneca
sirigaita de plástico, para o júbilo de jovens rapazes que estão ansiosos pela
aventura do verão.
Se já criminalizamos alguns
discursos porque são violentos, não é possível continuarmos passivamente
consumindo discursos misóginos a cada dia, como se o mundo da televisão não
estivesse ligado ao mundo real, como se as violências ali transmitidas tivessem
fim no click do controle remoto. Embora a matéria-prima para elaboração desses
comerciais esteja nas próprias relações sociais, nas performances ali
apresentadas há uma potencialização da violência. Não há uma disjunção radical
entre violência simbólica e física. Há processos de retroalimentação.
A força da lei já determinou que
os insultos racistas conferem ao emissor a qualidade de racista. Também
caminhamos para a criminalização da homofobia em suas múltiplas manifestações,
inclusive dos insultos. Por que, então, devemos continuar repetidas vezes ao
longo do dia a escutar ‘piadas’ misóginas, alimentando a crença na
superioridade masculina sem uma punição aos agressores?
Sabemos da força da palavra para
produzir o que nomeia, sabemos que uma piada homofóbica, racista, está amarrada
a um conjunto de permissões sociais e culturais que autoriza o piadista a
transformar o outro em motivo de seu riso. Agora, é incalculável o estrago que
imagens reiteradas de mulheres quase desnudas, que não falam uma frase
inteligente, que estão ali para servir a sede masculina, invisibilizadas em
duas tragadas, provocam na luta pelo fim da violência contra as mulheres.
Da mesma forma que o ‘piadista’
racista e/ou homofóbico acha que tudo não passa de ‘brincadeira’, o marqueteiro
misógino supõe que sua ‘obra-prima’ apenas retrata uma verdade aceita por
todos, inclusive por mulheres: elas existem para servir aos homens. E como é
uma verdade aceita por todos, por que não brincar com ela? Ou seja, nessa
lógica, ele não estaria fazendo nada mais do que reafirmar algo posto. Será?
Não é possível que defendam aquela sucessão de imagens violentas como
‘brincadeiras’. Essa ingenuidade não cabe a alguém que sabe a força da imagem
para criar desejos.
O que pensam os formuladores dos
comerciais? Que tipo de mulheres habita seus imaginários? Por que há essa
obsessão pelos corpos femininos? Será que eles ainda pensam que as mulheres não
consomem cerveja? Não se trata de negar a mulher-consumível, coisificada, pela
mulher consumidora, mas de apontar os limites de uma estrutura de comercial que
peca inclusive em termos mercadológicos.
Tal qual o assassino que matou
sua esposa acreditando que sua masculinidade está ligada necessariamente à
subordinação feminina, a cada gole de mulher, o homem sente-se, como em um
ritual, mais homem. Conforme ele a engole, ela desaparece de cena para surgir a
imagem de um homem satisfeito, feliz; afinal, matou sua sede. É um massacre
simbólico ao feminino. É uma violência que alimenta e se alimenta da violência
presente no cotidiano contra as mulheres.
*BERENICE
BENTO é doutora em sociologia, pesquisadora associada do Departamento de
Sociologia da UnB e autora do livro ‘A Reinvenção do Corpo: sexualidade e
gênero na experiência transexual’





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