Femininamente incorreta
Por
Sérgio Augusto em 04/10/2011 na edição 662
Reproduzido
do Estado de S.Paulo, 2/10/2011; intertítulos do OI
Indignação
no governo. Com o corporativismo no Judiciário, que esteve a pique de
sacramentar o esvaziamento do Conselho Nacional de Justiça e beneficiar os
“bandidos atrás da toga”? Não. Com o corporativismo do Conselho de Ética da
Câmara, que rejeitou a abertura de processo disciplinar contra o deputado
Valdemar Costa Neto, um dos réus no processo do mensalão? Não.
O governo
indignou-se com uma campanha de lingerie que começou a ser veiculada pela TV e
na internet no dia 20 de setembro. Entenda-se por governo a ministra Iriny
Lopes, da Secretaria de Políticas para as Mulheres, a quem ninguém deixaria de
dar razão se nos três comerciais das calcinhas e sutiãs Hope que tanto a
enfureceram mulheres aparecessem agredidas, estupradas ou estranguladas com
alguma peça de lingerie. Mas, como é do conhecimento público, nos três anúncios
a top model Gisele Bündchen apenas faz um casto jogo de sedução, sem tirar a
calcinha ou o sutiã. E com o marido, não com um amante ou o entregador de
pizza.
A sensual
artimanha é legítima, corriqueira em alguns ou muitos relacionamentos e fadada
ao sucesso se a lingerie estiver cobrindo o corpo de uma beldade e o marido for
um panaca. Para poder bater, impunemente, com o carro do marido, estourar-lhe o
cartão de crédito e constrangê-lo a coabitar com a sogra, uma mulher não pode
parecer um clone do humorista Laerte, fase crossdressing, por exemplo, tem que
ser top.
Greta
Garbo
O que
Gisele faz, nos três comerciais da Hope, é atestar o poder de sedução e da
astúcia femininos, não um mero ardil de mulher submissa e parasitária. Falar em
“desrespeito à condição feminina”, como fizeram a ministra Iriny Lopes, sua
subordinada Aparecida Gonçalves e outros baluartes do femininamente correto, é,
no mínimo, um exagero. Tudo bem, a mulher do anúncio não sabe dirigir carro
direito nem controlar seu consumismo conspícuo, mas ela é (e não há como
descolar a imagem da personagem de quem a encarna) a Gisele Bündchen, uma das
mulheres mais bonitas, famosas, bem-sucedidas, independentes e ricas do mundo.
Em
matéria de “ação afirmativa” da mulher brasileira, Gisele já era veterana
quando Dilma Rousseff elegeu-se presidente e Iriny Lopes deputada. A graça,
meio antiga e careta, dos comerciais estrelados pela modelo (em outro, da TV
Sky, ela não se importa de parar de esfregar o chão da casa para pegar uma
cerveja para o marido, refestelado diante de um televisor) deriva justamente do
contraste entre a personagem e sua intérprete, do absurdo das situações neles
exploradas, pois me parece unânime a certeza de que ainda não nasceu o homem
capaz de reduzir Gisele à condição de teúda e manteúda.
Impressiona
a ignorância de certas autoridades sobre como funciona a publicidade, como ela
trabalha com clichês e com o humor. Por entendê-la um pouco mais e achar que o
governo tem coisas mais sérias a tratar, resisto à tentação de propor à
presidente a criação de uma secretaria especial para fiscalizar o tratamento
dado ao homem na propaganda e denunciar ao Conselho Nacional de
Autorregulamentação Publicitário (Conar) todos os comerciais em que nós,
marmanjos, somos retratados como trouxas que se deixam enrolar por mulheres de
lingerie e como idiotas que babam por uma cerveja gelada ou carros que
desenvolvem velocidades inatingíveis fora de uma pista de Fórmula 1 – e muito
menos nas ruas de São Paulo. Para não mencionar os cornos mansos, os velhos
gagás e as bichas enrustidas.
Ano passado,
a SPM e o Conar proibiram um comercial da cerveja Devassa com a doidivanas
Paris Hilton por seu “conteúdo sexista e desrespeitoso à mulher”, por
“depreciar o corpo feminino” e “desmoralizar as louras”. Hilton limitava-se a
esfregar uma lata de cerveja ao longo do quadril, por cima de um pretinho
básico. Depreciação do corpo feminino? O de Hilton já chegou aqui depreciado
por sucessivas lipos e aplicações localizadas de silicone, mas isso é outra
história. A linhagem da loura burra não remonta a 1981, que foi quando (thank
you, Google) Hilton nasceu. Como agora com a campanha da Hope, os vigilantes do
femininamente correto – cuja retórica moralista muito me lembra as falas de
Greta Garbo de Ninotchka antes de sua capitulação aos apelos do coração
e aos prazeres da sociedade burguesa – não perceberam a graça do reclame:
cerveja = loura gelada = Paris Hilton, uma metáfora redonda.
Estatização
do corpo
“Publicidade
é um filé mignon para os demagogos.” A frase não é minha, mas do publicitário
Washington Olivetto, que, nesta era p.c., correria o risco de ter sua mais
aclamada criação (“Do primeiro sutiã ninguém esquece”) proibida, sob a acusação
de estimular a pedofilia. Olivetto iniciou carreira no auge da ditadura
militar. Embora sofresse mais pressões da censura exercida pelos clientes, pelo
menos em duas oportunidades os militares interferiram em seu trabalho, vetando
o verbo coçar num anúncio sobre o Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo (“Em
vez de ficar coçando, entre para o Liceu”, exortava o anúncio) e o substantivo
“menstruação” numa publicidade do absorvente O.B. (que provocou o recolhimento
nas bancas de uma edição da revista Veja).
Foi
justamente para manter o moralismo fardado longe da publicidade que se criou o
Conar. Como outras instituições do gênero, o Conar opera por sístoles e
diástoles, ao sabor das pressões do momento, às vezes se pautando mais pelos
conceitos de moral e bons costumes da avó que da mãe e da filha. Quem grita
mais, leva. Artigo no código de ética para justificar uma proibição é o que não
falta. Falta só bom-senso. Dos gritos que ouvi, ou melhor, li, dois me chamaram
atenção: o de uma leitora de O Globo, que acusou a SPM de tentar
estatizar o corpo e a sensualidade, e o de um blogueiro, que sugeriu ao governo
a criação da SPBCT (Secretaria de Políticas para Barangas, Canhões e Tribufus).
***
[Sérgio
Augusto é jornalista]
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