16/10/2013
06h24 - Atualizado em 16/10/2013 09h28
Marca do CE exibe criança
em poses erotizadas e gera denúncias ao Conar
Após polêmica,
empresa diz que foi 'mal interpretada' e vai retirar imagens. Conselho de
Autorregulamentação Publicitária analisa peças de marca.
Gabriela Alves e André TeixeiraDo G1 CE
Campanha gerou polêmica por usar imagem de menina em
poses consideradas sensuais (Foto: Reprodução)
Uma
campanha do Dia das Crianças de uma marca
cearense de bolsas e sapatos gerou polêmicas nas redes sociais. As três peças
publicitárias mostram uma menina maquiada, usando objetos de adultos e em poses
erotizadas. A campanha foi veiculada nas redes sociais da empresa e em banners
nas lojas físicas. Após a publicação em 12 de outubro, as imagens foram
compartilhadas por centenas de usuários do Facebook, acompanhadas de críticas à
marca. A empresa diz que houve uma ''interpretação distorcida'' do conteúdo.
saiba mais
O Conselho
Nacional de
Autorregulamentação Publicitária (Conar) afirmou que, até a segunda-feira (14),
recebeu 70 notificações sobre a campanha da marca cearense, aceitou as
denúncias e abriu um processo contra o anunciante. O órgão recebe denúncias de
consumidores, autoridades e anunciantes, além de regulamentar a prática
publicitária com base no Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária.
Entre os
que criticaram a campanha, estão especialistas e publicitários que analisam que
as peças ferem o código, que trata sobre crianças e adolescentes na publicidade.
O parágrafo 1º do artigo 37 diz que “crianças e adolescentes não deverão
figurar como modelos publicitários em anúncio que promova o consumo de
quaisquer bens e serviços incompatíveis com sua condição, tais como armas de
fogo, bebidas alcoólicas, cigarros, fogos de artifício e loterias, e todos os
demais igualmente afetados por restrição legal”.
A marca é para
o consumo de adultos e coloca a criança extremamente erotizada, em uma situação
absolutamente desnecessária"
Inês Vitorino, coordenadora do Grupo de Pesquisa da Relação Infância,
Juventude e Mídia da Universidade Federal do Ceará
Segundo a
coordenadora do Grupo de Pesquisa da Relação Infância, Juventude e Mídia
(Grim), da Universidade Federal do Ceará (UFC), Inês Vitorino, a campanha desrepeita não só o código da
publicidade, mas também o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
“É uma
campanha extremamente de mau gosto e desrespeitosa em relação às crianças. Para
começar, a criança não é o foco da campanha. A marca é para o consumo de
adultos e coloca a criança extremamente erotizada, em uma situação
absolutamente desnecessária. Além disso, fere o ECA porque coloca a criança em
situação vexatória, de calcinha, se maquiando, dentro de uma sociedade com
tantos casos de pedofilia e abuso sexual”, afirma Inês Vitorino.
Para a
pesquisadora, o caso é um retrocesso às discussões sobre ética na publicidade.
“A reação das pessoas foi imediata contra a campanha. Quando vi, não acreditei.
Um tema que vem sendo discutido há mais de uma década. Foi uma exposição
desnecessária, gratuita. Com certeza, nas discussões de Ética, será lembrado
com um exemplo de que nem tudo vale para vender”.
Nas fotos da campanha, criança aparece
com
batom, maquiagem e roupas de adulto (Foto: Reprodução)
batom, maquiagem e roupas de adulto (Foto: Reprodução)
'Má interpretação'
Em nota,
a marca Courofino informou que as peças e o banner publicitário divulgados na
página oficial da empresa em uma rede
social "buscou homenagear uma data tão importante no cenário
nacional" e que houve uma "interpretação distorcida da real intenção
da empresa" que era de mostrar a brincadeira de uma criança com os
pertences da mãe.
A empresa também afirmou que não teve a intenção de erotizar
a infância e informou que já retirou o material publicitário de circulação. A
marca ainda pediu aos usuários das redes sociais que não compartilhe a imagem ou que excluam das páginas para diminuir os
"efeitos negativos causados pela má interpretação da campanha".
Houve
interpretação distorcida da real intenção da empresa"
Empresa criticada por campanha, em nota
Regulamentação
De acordo
com o Conar, mesmo que a marca retire as peças, o processo continua tramitando,
pois poderá referenciar campanhas futuras. O próximo passo será dado por um dos
180 relatores do Conselho de Ética do Conar, escolhido para o caso, que
decidirá se será necessária ou não uma medida liminar para a retirada da
campanha. Segundo o conselho, o voto deve ser dado até esta quarta-feira (16).
Caso não tenha uma medida liminar, a campanha pode ser utilizada até o fim do
julgamento do processo, que dura de 30 a 40 dias.
Ainda de
acordo com o Conar, é importante que as empresas reconheçam e atendam a
regulamentação do conselho. A retirada é de responsabilidade do anunciante, que
é informado sobre a existência do processo e pode participar da sessão que
julgará o processo, apresentando, inclusive, defesa.






