Por Fernanda Peixoto
Jornalista e integrante da equipe de Educação e Cultura da Infância do
Instituto Alana
“Disponibilizar tempo para
brincar. Mas não meia hora. Meia hora é um tempo muito delimitado. O pensar, o
criar, o fazer, o acontecer… não é em meia hora que vai acontecer esse brincar”.
A frase acima é de uma professora de
uma das seis escolas brasileiras que se dispôs a olhar o brincar dentro de seu território e com
suas crianças, e em diálogo constante com o programa Território do Brincar. Essa troca, que
propunha potencializar o brincar dentro e fora
da escola, resultou em produções que foram lançadas pelo programa em 2015 – a
exemplo do documentário Território do Brincar – Diálogos com
escolas e de seu livro homônimo.
Afinal, como disseram os
participantes desse diálogo, é necessário tempo largo para que os pequenos
brinquem e explorem livremente o que há ao seu redor. Ou, como nas palavras da
coordenadora do programa Território do Brincar,
Renata Meirelles, precisamos criar oportunidades para a criança poder ser
aquilo que ela é. “O ócio é potente na infância para que a criança possa se
alimentar daquilo que vem de dentro pra fora”, afirmou a educadora em entrevista.
No entanto, para especialistas, a
nossa sociedade não tem investido em tempo, espaço e tampouco circunstância
para o brincar dessas crianças. Em palestra no
evento trianual do International Play Association
(IPA World), cuja última edição aconteceu em setembro em Calgary, no
Canadá, o psicólogo e pesquisador Peter Gray alertou que a sociedade atual
sofre do que ele chama de Transtorno de Déficit do
Brincar.
Baseando-se em análises históricas e
sociais dos Estados Unidos e de outros países, o pesquisador chegou à conclusão
que, nos últimos 60 anos, houve um forte declínio do brincar.
Paralelamente a isso, ocorreu oaumento de depressão, transtorno de ansiedade e suicídio entre crianças e jovens. “O desenvolvimento integral, considerando o
desenvolvimento intelectual, emocional, social e cultural das crianças, está
direta e intrinsecamente relacionado à possibilidade delas brincarem
livremente”, afirmou.
Mais informações e referências a esta
palestra podem ser encontradas no site do Centro de Referências em Educação
Integral e do IPA World (em inglês).
Fato é que o ócio e o “nada” são
fundamentais para que as crianças tenham autonomia na realização de seus
quereres. O tempo cronometrado, fragmentado, enfraquece a possibilidade de
exploração da potência e da imaginação. E sendo
assim, corroído pelo acúmulo de horários rígidos, atividades e obrigações, o
ócio e tudo aquilo que se desdobra a partir dele vêm perdendo seu espaço.
Nesse sentido, um livro publicado
pelo filósofo Byung-Chul Han traz algumas observações relevantes para esse
debate. Na obra Sociedade do Cansaço, o autor volta
seu olhar para a sociedade deste início de século 21 que, segundo ele, é uma
sociedade do desempenho e do trabalho. Somos estimulados 24 horas por dia, sete
dias por semana, dispostos a executar múltiplas tarefas concomitantemente e
sempre mergulhados em um excesso de estímulos, informações e impulsos.
Desprovidos de tempo livre e de
espaço, acabamos sendo consumidos pelo cansaço, destruindo qualquer possibilidade
de entrega ao lazer, à festividade e à contemplação. “O excesso da elevação do
desempenho leva a um infarto da alma”, afirma o filósofo. “Aparentemente, temos
tudo; só nos falta o essencial, a saber, o mundo. O mundo perdeu sua alma e sua
fala, se tornou desprovido de qualquer som”, diz.
O cenário estabelecido pelo autor
dialoga, de certa forma, com a visão de Peter Gray e seu discurso de que é
urgente restaurar às crianças o direito de brincar. Como apontou o psicólogo, é
inconcebível que familiares e escolas estejam olhando, hoje, para esse momento
da vida como uma mera fase de construção de currículo, eliminando todo o potencial lúdico e expressivo da infância.
O brincar permite à criança elaborar
o mundo, dá sentido a suas experiências internas e externas, amplia sua
compreensão do entorno. Segundo Gray, com a perda do brincar livre, perde-se a essência da infância.
É para essa direção que queremos caminhar? Muito tempo atrás, o escritor
mineiro Guimarães Rosa já nos anunciava a importância do elemento
contemplativo: “Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo”.
Por tudo isso, sim: já é tempo de nos posicionarmos em defesa do “nada”
na vida das nossas crianças.
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