sábado, 26 de maio de 2018

VAI MALANDRA, VAI. 2



Entenda! A bunda de Anitta é sujeito e não objeto




Tutudum! Hipnótico o novo clipe de Anitta! Retomando essa figura meio arquetípica do Brasil, o funk feminino de Anitta incorporou as questões de gênero conjugando a malandragem com um feminino plural.

Vai, Malandra, o clipe, traz verdadeiros memes visuais, culturais e musicais que valem por um tratado sociológico. Ainda não se escreveu, e faz falta, um tratado sobre os corpos pensantes das mulheres, para além do imaginário em torno da bunda, da raba, do bumbum, do traseiro da mulher brasileira,  que virou um disparador de questões sensações!  O corpo sexualizado na era da sua ressignificação pelas próprias mulheres!
Um corpo que o funk, o samba, o biquíni de fita isolante, toda a cultura solar carioca já vem dizendo, tem tempo, que não precisa ser  apenas objeto e signo de assujeitamento, toda vez que quiser se exibir.
A bunda (e o corpo das mulheres) pode se deslocar da objetificação para a subjetivação! A bunda viva de Anitta com sua celulite sem photoshop é sujeito e não objeto. Se as mulheres fazem o que quiserem com seus corpos (a Marcha das Vadias explicou isso para a classe média), elas podem inclusive se “autoexplorarem”, ensina o funk. A bunda ostentação de Anitta no início do clipe já aponta para esse outro feminismo (de mulheres brancas, apenas? Acho que não!)
Sabemos que o feminismo negro questiona, e com muitas razões, o feminismo branco liberal. Pois a emancipação do corpo as vezes se confunde com sua exposição e objetificação, para um grupo em que racismo e sexismo significaram a exploração violentíssima do corpo exposto e hipersexualizdo da mulher negra servindo ao gozo de seus algozes. Mas é sempre assim?
Foram as mulheres do funk (Tati Quebra Barraco, Deise Tigrona, Anitta etc.) e depois as meninas pretas do rap e do pop (de Nega Gizza a Karol Conka) que vem fazendo essa outra política, esse outro feminismo, na marra. Expondo seus corpos de maneira ativa, muitas vezes escandalosa, falando de desejo, sexualidade, multi parceiros, posições sexuais, motel, masturbação, corpo gordo, celulite, beleza negra, sexo anal, oral, sexismo, patriarcalismo, gozo, de forma explícita e desencanada.
Leila Diniz (mulher branca da Zona Sul) virou musa pelo seu comportamento libertário, que agradava mulheres e homens, mas existe toda uma linhagem outra das mulheres negras e brancas periféricas que ainda são consideradas “vulgares” quando assumem sua virilidade. E fato é que essas mulheres da periferia meteram o pé, entraram nas universidades e hoje temos entre as novas divas contemporâneas,  de Anitta até uma jovem negra universitária, fashion e filósofa, como Djamila Ribeiro e outras mulheres incríveis e lacradoras, como se diz.
Mas voltemos ao corpo. A “surra de bunda” que Anitta mostra a certa altura no clipe não é só sacanagem ou vulgaridade. Se Anitta decide oferecer seu bumbum para ser cutucado por dedos masculinos ou feito percussão de forma lúdica, quem vai achar ruim? Os homens brincaram com seus paus por séculos e erigiram uma cultura falocêntrica, que se auto homenageia, um paucentrismo, que produziu “tudo que está aí”.
Deixem as mulheres brincarem com suas bundas, bucetas etc. E mais: deixem as mulheres ganharem dinheiro e projeção com seus corpos, no comando da própria monetização de suas vidas – e não sendo assujeitadas. As mulheres têm que ter o copyright e serem as principais beneficiadas de séculos de assujeitamento e sexismo.
Essa periferia global, cultural, potente, dos corpos que falam, do parlamento dos corpos (das mulheres, dos gays, trans) é o que torna ainda mais intolerável e insuportável o massacre epidêmico dos corpos negros e periféricos, pela polícia e pelo Estado, ou o feminicídio, em um país como o Brasil.
Existe uma potência dos corpos periféricos, negros, femininos, que o funk ostentou, que o rap e o feminismo negro deslocou, tirou do lugar de “objeto”, numa reviravolta cultural que explicita o outro lado: o racismo de base da nossa sociedade e as contradições da cultura pop global brasileira.
Além do funk hipnótico minimalista – “Ê, tá louca, tu brincando com o bumbum. Tutudum!” -, Anitta coloca os homens de coadjuvantes: o incrível funkeiro brasileiro MC Zaac e o rapper norte-americano Maejor . Ela comanda o espetáculo pop.
Desde  o início do ano 2000, quando explodiu a produção cultural das periferias em todos os campos, que certo estranhamento se dá. Quando se vê que, mesmo querendo entrar no mundo do consumo, das marcas, das comodidades do mundo capitalismo, parte dos artistas, produtores culturais, ativistas da periferia que ascenderam socialmente, não querem abrir mão da sua cultura e pertencimento, do seu território.
Estão aí, no clipe de Anitta, filmado no Vidigal, os memes culturais da periferia pop e global: a popozuda com o corpo sendo regado por homens sarados que as servem; o biquíni de fita isolante da Érika do Bronze (a mulher que monetizou a marquinha de sol! Isso que é startup!); o pobre-star que pauta os editoriais da moda praia ao ativismo;  a reinvenção do cotidiano que transforma a carroceria de um caminhão velho em piscina e felicidade; a funkeira negra, gorda e glamourosa, Jojo Toddynho; a cultura evangélica “Ergo a bandeira da vitória em nome de Jesus”; as trans, o black power nos corpos e cabelos, as louraças e os meninos de cabelos descoloridos.
Toda essa cultura da laje, de uma pobreza potente, inventa mundos, modas, gírias, linguagem, inventa a sua própria vida. Se hoje o Brasil, associado a corrupção das suas elites, crise ética, perda de direitos, retrocessos comportamentais, tem outros horizontes, passa por essa força dos corpos e sujeitos que emergiram das bordas e podem reinventar a nossa trágica e solar democracia. Os corpos como política.
Anitta e a Teoria King Kong
Uma outra questão: Anitta faz parte da emergência de um feminino e feminismo viril! O masculinismo e a virilidade podem, sim, ser apropriados e transformados pelas mulheres, como propõe a Teoria King Kong, de Virginie Despentes, o manifesto mais ácido para um outro feminismo que chuta uma quantidade extraordinária de baldes e lugares comuns sobre as mulheres e reivindica para si as vantagens inerentes à masculinidade e à virilidade.
Do que nos diz Virginie Despentes  e que vale para o feminismo viril de Anittas e que tais eu destacaria:
– “o exercício direto do poder”, pois espera-se que renunciemos a esse tipo de prazer em função do nosso sexo.
– o direito de comercializar e negociar nossos “encantos” e explicitar essas relações em contratos saudáveis e claros entre sexos. “Não precisa nem complicá-lo e nem culpabilizá-lo”. E aqui Despentes está falando, inclusive, da prostituição como trabalho digno e todos os demais usos monetizáveis que podemos fazer de nossos corpos. Como fazem as “minas” do funk!
O desafio é um só: abandonar a “arte do servilismo” que diz que as mulheres não devem se expor, não devem falar alto; não devem se expressar em tons categóricos; não devem sentar com as pernas abertas; não devem se expressar num tom autoritário; não devem falar de dinheiro; não devem conquistar poder; não devem ocupar um posto de autoridade; não procurar prestígio; não rir muito alto; não ser muito engraçada. A lista de “nãos” é infinita!
Por isso é tão importante as Anittas e as mulheres que estão produzindo um outro imaginário, mesmo clichês, mesmo questionáveis, mesmo dentro de um campo de consumo. É possível politizar o pop, o fervo, o funk? Na real, tudo já é político. Estamos em uma disputa de imaginários.
“O que pode um corpo?”, Pergunta o filósofo. E o que pode um corpo de uma mulher do funk, o que podem as mulheres das periferias, as negras e brancas? A mais incrível batalha não começa na mente, começa nos corpos e pode ser ao som do hipnótico tutudum.
P.S. Sim, teria sido mais coerente Anitta ter como diretor do seu clipe outro tipo de homem, que não Terry Richardson, acusado de assédio e abusos contra mulheres ou ser dirigida por uma outra mulher. São muitas ainda as contradições e os limites de um processo em curso.


quinta-feira, 24 de maio de 2018

VAI MALANDRA, VAI.




·        CULTURA & ENTRETENIMENTO
·        MÚSICA
Estou procurando entender que tanto empoderamento feminino encontraram na Anitta. Por Elika Takimoto
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 23 de dezembro de 2017

Resultado de imagem para anita
Publicado no Facebook de Elika Takimoto
Estou procurando entender que tanto empoderamento feminino estão encontrando por aparecer na tela uma puta raba sem Photoshop.
Exibir o corpo das mulheres é uma afirmação da sexualidade ou apenas uma outra forma de exploração? Eu, sinceramente, estou com muitas dúvidas.
Vejo Anitta “lacrando” e fico me perguntando em que medida o último clipe derruba padrões de beleza. Em que medida um clipe que exibe corpos femininos e começa com uma bunda, ainda que com celulite, mas uma puta raba daquelas tomando conta de toda a tela, ajuda na causa feminista? Em outras palavras: o que o cu tem a ver com a causa?
Não sejamos ingênuos. Anitta trabalha em um sistema que requer que as mulheres tenham uma determinada aparência porque se não forem lindas do jeito que são e rebolarem como fazem não serão expostas na televisão.
Entendo perfeitamente que tudo aquilo possa ser uma reivindicação da sexualidade. O que não percebo é uma ferramenta de mudança real na estrutura do patriarcado que muitas pessoas estão vendo com esse clipe. Mudança veria se me dissessem que o Brasil passou a ler mais e que havia parado de babar vendo bunda que ocupa a tela toda.
Olhando por um lado, vejo uma heroína, uma mulher forte, lucrando de forma inteligente com o que tem. Olhando por outro, percebo mais uma marionete. Constato que muitas manas são estrategistas bem perspicazes que sabem usar essa sexualidade e obter muito lucro. Palmas para elas.
Não percebo, porém, um clipe desse ajudar na desconstrução de um mundo machista de entretenimento que coloca a sexualidade feminina em uma caixa de forma que ela seja a mais chamativa possível.
Vi apenas mais um clipe não diferente de outros pornoficados exacerbando a cultura da hipersexualização da mulher. Cadê a ideia de que ser sexy pode ser algo diferente disso que estou assistindo? Cadê o ensinamento maior para as manas que o modo como elas percebem seus corpos é mais importante que a forma como os homens as vêem? Anitta seria rainha da porra toda se tivesse outro corpo?
“Ah mais antigamente mostrava a bunda para agradar macho, hoje não. Hoje temos Anitta com celulite.” Ah, gente.
Vi bunda de chacrete, bunda da Gretchen, bunda da Xuxa, bunda de Carla Perez, bunda bunda bunda. Curti a música, me distraí com o clipe Vai, malandra. Daí a afirmar que as mulheres estão lacrando, o Brasil evoluindo, mentes se abrindo e o machismo sendo desconstruido por causa da bunda da Anitta com celulite na tela toda vai um abismo.
Nada contra Anitta como não tive nada contra Carla Perez. São duas lindas e excelentes dançarinas. Estou me posicionando contra pessoas que estão vendo traços de evolução em uma humanidade cujo foco ainda é a bunda.
Foi divertido e só. O Brasil continua um cu.


TODO COMERCIAL DE CERVEJA | PARAFERNALHA

https://www.youtube.com/watch?v=Zj2369Q-XmA


Bares, mulheres, cerveja e machismo 1.

Os comerciais sobre cerveja sempre apelam para a presença da mulher e geralmente criam situações machistas para vender um produto que está associado ao prazer (e não só atualmente lança-se mão desse apelo. A figura da mulher está presente em comerciais de bebidas há muito).

VAI MALANDRA, VAI. 2

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